mortificação 1

“Existem dois males que certamente acompanham todo cristão professo, mas não mortificado: o primeiro relaciona-se com ele mesmo, e o outro diz respeito às outras pessoas.

1- Em relação a si mesmo

O cristão pode fingir quanto quiser e não levar a sério o pecado, pelo menos não os pecados que o enfraquecem diariamente. A raiz de uma vida não mortificada é a assimilação do pecado sem senti-lo amargo no coração. Quando alguém ajustou a imaginação para uma espécie de apreensão da graça e da misericórdia que o torna capaz de engolir e ingerir pecados diários sem sentir amargura , chegou à beira do abismo de transformar a graça de Deus em lascívia e de ser endurecido pela engenhosidade do pecado. Além disso, não existe no mundo maior prova de coração falso e impuro do que imaginar semelhante coisa. Usar, como desculpa para tolerar o pecado, o sangue de Cristo, dado para nos purificar (1Jo 1.7; Tt 2.14);  a exaltação de Cristo que visa levar-nos ao arrependimento (At 5.31); a doutrina da graça que nos ensina a negar toda a impiedade (Tt 1.11,12), é rebelião que nos esmagará os ossos. 

Por essa porta tem saído a maioria dos cristãos professos que cometeram apostasia nos dias que vivemos. Durante algum tempo, a maioria deles tinham convicções que os levavam a cumprir seus deveres e a fazer a profissão de fé. Assim, “tendo escapado das contaminações do mundo por meio do conhecimento de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo (2Pe 2.20), mas após algum contato com a doutrina do evangelho e cansados de cumprir deveres paraos quais não possuíam graça, a permitir-se numerosas negligências. Uma vez que esse mal tomou posse deles, rapidamente caíram na perdição. 

2- Em relação às outras pessoas, há a influência maligna que opera de duas maneiras:

2.1 -Ficam endurecidas, tendo a convicção de que estão em condições tão boas quanto a dos melhores cristãos professos. Seu modo de ver as coisas é tão maculado pela falta da mortificação do pecado que o que fazem não tem valor algum. Têm zelo pelo evangelho, mas acompanhado de falta de tolerância e de retidão moral. Negam a prodigalidade (abundância), mas de modo mundano; separam-se do mundo, mas vivem totalmente para si mesmas e não têm cuidado de exercer o amor benigno na terra. Ou são espirituais no diálogo e vivem de maneira vã: mencionam a comunhão com Deus e se amoldam de todas as maneiras ao mundo; vangloriam-se do perdão do pecado e nunca perdoam o próximo. Assim, com considerações como essas, essas pobres criaturas endurecem seu coração não regenerado. 

2.2 – Enganam-se a si mesmas e chegam a acreditar que, se conseguem parecer estar vivendo à altura de sua suposta condição, tudo vai bem com elas. Assim se torna bem corriqueira a grande tentação de atribuir todas as lutas da vida à religião; mesmo quando vão muito além das exigências da fé, segundo lhes parece, ainda ficam muito aquém da vida terrena.”

– trecho tirado do livro: Mortificação do Pecado – John Owen

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