piada de preto

Certa vez, eu deveria ter uns sete ou oito anos, eu ouvi uma piada que ficou marcada na minha mente. A visão que eu tinha de mundo era a melhor possível e ainda não havia passado por nada com relação a preconceito racial, até então só percebia isso na diferença que tenho da minha mãe e das constantes dúvidas que as pessoas esboçavam quando me viam gritando; “mãããe” em algum lugar…. Bom, mas antes de continuar a história, vamos a piadinha:

Um homem estava orando e questionando a Deus porque este o havia criado negro:

“Deeeeeeeeeeus, por que me fizeste nascer com esse cabelo duro?” – disse o homem

Deus respondeu: “É para que seus cabelos não grudassem nos galhos da savana meu filho”… “Então, porque o Senhor me fez nascer com essas pernas longas e feias?” – “Para que você pudesse correr nos campos e saltar dos galhos na África meu filho!”

“Oh não Senhor, por que me fizeste nascer com essa cor tão escura?” – “Para que você agüentasse o sol quente que faz na África meu filho!”

“Aaaaaaaaaaaaahhh Senhoooor, então por que me fizeste nascer em São Paulo??”

Bom, graça ou não…. quando eu ouvi essa piada pela primeira vez, muita coisa fez sentido em minha vida. Além disso, ouvi uma história, mais ou menos com essa idade mesmo, que minha avó me contou de uma missionária que sonhava em ter olhos claros, e até orava por isso (sandices que fazemos as vezes), e um dia Deus a enviou para um campo e todos os que tinham olhos claros foram mortos, ela, mesmo estrangeira, sobreviveu graças aos seus lindos olhos negros.

Estou escrevendo isso, porque poucos assuntos ou quase nenhum assunto me machuca mais do que preconceito racial. Nem sei se era bom desabafar isso aqui, mas acho que é um bom momento de reflexão. Quando você está em um grupo no qual se vê diferente dos demais, seja porque é mais bonito, mais feio, mais gordo, mais alto, mais falador, mais quieto, mais rico ou mais pobre, e realmente se incomoda com isso, você tem um pouco da noção do que é sentir o preconceito racial. A grande questão e antigamente eu diria problema, é que cor da pele, você não muda! Ainda que nossos esforços existam, sempre vão te ver como a nega, neguinha, preta… Sempre terão apelidos “carinhosos” e igualmente pejorativos para te rotular. Mesmo que não percebam, no fundo há um result de uma sociedade racista.

Passei por muitas crises de cor e identidade. Muitas, nem me lembro quantas. Como disse, a primeira foi (sendo bem melodramática) quando abri os meus olhos ainda na maternidade e “opaaaa”, vi que minha mamãe era diferente de mim! Depois veio o play do prédio, o comentário dos amigos, os olhares dos vizinhos, os grupos na escola, os namorados (especificamente um), o primeiro emprego, o grande emprego, a universidade, a igreja, a missão. Em cada um, com exceção do último, um apelido para tornar mais amena a condição de ser diferente. Não consigo enxergar de outra forma. Mesmo que eu queira muito. Hoje, eu sei que estou liberta da dor que sentia quando percebia essa diferença. Porém confesso que ainda fico profundamente triste quando percebo qualquer tipo de segregação.

Certa vez me disseram que o preconceito está em você. Concordo. Eu era mesmo muito preconceituosa. Acho que pela minha criação ainda sou um pouco. E isso é feio demais. Mas é bom admitir, admitir para mim mesma. E então eu me lembrei dessa piada e dessa historia, e por incrível que pareça, me lembrei da sensação de quando ouvi cada uma delas: eu fui feita com o propósito de ser diferente!

Quando eu ouvi a piada, mesmo sem ninguém ver, eu me lembro de eu olhar pro céu, e falar com Deus assim (estávamos no carro indo para a PIB do ROCHA e mais especificamente descendo a água mineral… me lembro mesmo ta¹?):

“Então Deus, tem um motivo para o Senhor me criar diferente da minha mãe, é sinal de que eu vou embora daqui, neh?”

E aquilo ficou por anos na minha cabeça… Acho que esta piadinha infame influenciou grandes coisas na minha vida, que hoje deram lugar a essa fome de levar a palavra.

Para o lugar onde vou hoje, pelas fotos e pelo que me contaram, os negros formam uns 80% da igreja. Só podemos andar juntos, porque pode ser perigoso andarmos separados em virtude do maciço preconceito existente no lugar (isso eu não contei a ninguém, mas não se preocupem que Deus ta no controle). Meus amigos fizeram brincadeiras comigo que eu realmente não gostei e me magoei, mas sabe Deus quantas dessas eu não ouvir ouvir lá? E de pessoas que sequer me conhecem e muito menos me amam? Não tiro a responsabilidade dos meus amigos, porque numa relação deve existir respeito. Mas entendo que eles não fizeram por mal.

Por isso, antes de brincar com alguém, pense o que aquele tipo de brincadeira pode acarretar para a pessoa. Lembre-se que a morte e a vida estão no poder da língua (ta em provérbios). VIU? A língua tem poder, seja ela num papo sério, seja em uma simples piada que pode mudar toda uma vida.

Obs.: Não atribuo a missão a esta piada, mas que ela, por ser tão simples, foi um pontapé para me fazer entender muito da diferença que hoje vejo que faz parte da multiforme graça de Deus

 

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